A oftalmologia foi um dos primeiros ramos da medicina a ser tratado como especialidade independente. Durante muito tempo, fossem atribuídos ao olho poderes mágicos, benfazejos ou nefastos, capazes de lançar mau-olhado ou quebranto.O código de Hamurabi (escrito cerca de 1.700a.C.) já tratava a visão de uma maneira especial: pela lei, uma operação bem sucedida que salvasse o olho do paciente teria de ser remunerado em 10 shekels no caso de um “cavalheiro”, 5 shekels para funcionários públicos e 2 shekels para escravos. No entanto, para uma operação mal sucedida causando morte ao paciente “livre” ou perda do olho, o cirurgião teria que amputar as mãos, e ao paciente “escravo”, bastaria substitui-lo.

Por volta de 1550 a.C., foi escrito um dos tratados médicos mais antigos e importantes da história: O Papiro de Ebers (homenagem ao monge alemão Georg Ebers, que os adquiriu em 1873d.C.), durante o reinado de Amenophis I no antigo Egito, tem-se relatos a partir da prática empírica e observação de várias doenças oculares, tais como blefarite, calázio, ectrópio, entrópio, ptergío, pinguécula, irite, catarata, oftalmoplegia e dacriocistite.

Entrentanto, em nenhum momento o antigo Oriente deixou de relacionar saúde com crenças sobrenaturais. Somente com a ascensão dos Asclepíades, um grupo que alegava ser descedente direto do Deus Esculápio, que a medicina grega começou. Hipócrates (460-370 a.C.), frequentemente considerado o “pai da medicina” foi um asclepíade, que conseguiu libertar a medicina da escravidão do sobrenatural, rejeitando as crenças supersticiosas e das práticas mágicas da saúde primitiva, direcionando os conhecimentos em saúde no caminho científico. No campo da oftalmologia, merece destaque seu predecessor Alcmeon de Crotona (por volta de 500 a.C.). Além de ter sido responsável pela primeira dissecção de um cadáver humano e da associação dos processos fisiológicos das sensações com o cérebro, Alcmeon foi o primeiro médico que tratou da anatomia do olho. Ele descreveu o nervo óptico e dizia que existem três substâncias responsáveis pela formação da visão: a luz externa, o fogo interno do olho e os humores como meios de transmissão. Apesar disso, é atribuído aos gregos a descrição das estruturas oculares, baseadas em túnicas, humores cristalinos, aquoso e vítreo, nervo óptico, córnea, íris, etc.

Na figura ao lado, atribuído ao médico grego Rufus de Éfesos (50d.C.), temos a representação da estrutura externa e interna do olho. Nela podemos notar especialmente a córnea, a lente e o vítreo; vemos também três túnicas: a conjuntiva, a esclerótica e a coróide; além disso, temos o olho unido ao nervo óptico. Essa descrição do olho dada por Rufo de Éfeso sofrerá muitas alterações ao longo da história da anatomia, mas a estrutura anatômica básica do olho já se encontra esboçada nela. O maior representante da tradição anatômica e fisiológica do olho na Antiguidade romana foi Galeno de Pérgamo (129-199 d.C.). Seguindo a teoria da emissão, juntamente com a concepção estóica do pneuma óptico (um agente ativo composto da mistura de ar e de fogo que, transmitido pelo olho, excita o ar que lhe é adjacente, levando esse ar a um estado de tensão que, quando em contato com a luz solar, leva o olho a ver um determinado objeto!!) Galeno elaborou uma explicação de como se dá a visão, embora não considere que o olho emite um pneuma, mas que o próprio ar é o instrumento que leva o olho a ver um objeto iluminado pela luz solar. Essa concepção de Galeno é baseada em Aristóteles, pois ela utiliza a noção de meio transparente que atualiza as formas dos objetos vistos pela ação da luz. Contudo, mais importante que essa explicação filosófica de como se dá a visão é a descrição anatômica e fisiológica que Galeno apresenta para o olho humano. Galeno, em “Sobre o uso completo das partes do corpo”, foi o primeiro a atribuir ao humor cristalino a função de principal instrumento da visão, justamente por ele ser o último receptor sensitivo, conforme ele escreve:

“O próprio humor cristalino é o principal instrumento da visão, um fato claramente provado por aquilo que os físicos chamam de catarata, que se localiza entre o humor cristalino e a córnea”. (Galeno apud Lindberg, 1976, p. 11)

Para Galeno, quando um homem sofre de catarata, esta impede que o objeto seja percebido pelo olho desse homem, isto é, quando a catarata encobre o humor cristalino, o homem deixa de ver. Galeno inferiu disso que é o humor cristalino a parte do olho responsável pela visão; sendo assim, é no humor cristalino que as imagens são formadas. Essa função atribuída ao humor cristalino prevalecerá por toda a Idade Média, só sendo rompida por Kepler (1571-1630) que, seguindo a anatomia de Felix Plater, atribuirá à retina o papel de principal responsável anatômico pela formação das imagens no olho humano.

Para Galeno, quando um homem sofre de catarata, esta impede que o objeto seja percebido pelo olho desse homem, isto é, quando a catarata encobre o humor cristalino, o homem deixa de ver. Galeno inferiu disso que é o humor cristalino a parte do olho responsável pela visão; sendo assim, é no humor cristalino que as imagens são formadas. Essa função atribuída ao humor cristalino prevalecerá por toda a Idade Média, só sendo rompida por Kepler (1571-1630) que, seguindo a anatomia de Felix Plater, atribuirá à retina o papel de principal responsável anatômico pela formação das imagens no olho humano.

A tradição matemática

A tradição matemática foi a que obteve o maior desenvolvimento na óptica durante a antiguidade grega. Ela representa a tentativa de geometrizar o que se visualiza pelo uso de retas e ângulos num espaço tridimensional.

Os maiores expoentes da tradição matemática da óptica grega foram Euclides e Ptolomeu. Ao primeiro devemos a teoria do cone geométrico, no qual o olho humano torna-se o ápice do cone e o objeto visto a sua base. Ao segundo, uma aplicação matemática que considera os aspectos físicos dos fenômenos ópticos. A importância de Euclides (século iii a.C.) para a tradição matemática da óptica é fundamental, sendo reconhecido como o fundador dessa tradição. Pode-se dizer que ele “criou a ciência da óptica geométrica e perspectiva ao tomar o olho como o ponto de origem das linhas de visão, das quais ele postulou as propriedades essenciais” (Crombie, 1990, p. 606-7). Tais propriedades são os sete postulados de Euclides contidos em sua Óptica, que são:

(1) que os raios retilíneos procedentes do olho divergem indefinidamente;

(2) que a figura contida por um grupo de raios visuais é um cone, do qual o vértice localiza-se no olho e a base na superfície do objeto visto;

(3) que as coisas que são vistas sob os raios visuais diminuem e as coisas que não são vistas sob os raios visuais não diminuem;

(4) que as coisas vistas sob um ângulo grande parecem largas e aquelas sob um ângulo   pequeno parecem pequenas, e aquelas sob ângulos iguais parecem iguais;

(5) que as coisas vistas sob um ângulo visual amplo parecem amplas e as coisas vistas sob um ângulo visual reduzido parecem reduzidas;

(6) que, similarmente, as coisas vistas sob raios mais afastados para a direita parecem mais afastadas para a direita e coisas vistas sob raios mais afastados para a esquerda parecem mais afastadas para a esquerda;

(7) que as coisas vistas sob ângulos maiores são vistas mais claramente (Euclides apud Cohen & Drabkin, 1948, p. 257-8).

A teoria do cone visual euclidiano perdurou até Kepler, quando este inverte o cone – o vértice passa a estar em cada ponto iluminado do objeto visto e a base no próprio olho. O fundamental para a história da óptica é que a teoria euclidiana do cone visual “restringiu” o entendimento do funcionamento do olho humano. A teoria do cone visual euclidiano foi feita admitindo-se que o que o olho vê é expressão da realidade do mundo externo. O fato do vértice do cone estar no olho implica que o olho capta as informações de um campo visual específico. Aqui está envolvida a concepção filosófica de Euclides. Ele seguiu a teoria da emissão, admitindo que é o olho humano que emite raios que chegam ao objeto, e esses raios voltam ao observador em forma de dados, de imagens que são processadas no olho e passam, a seguir, para o cérebro do observador. Com isso, a geometria do cone euclidiano funciona para uma concepção de visão ativa.

Os desenvolvimentos na óptica do século xvii, que terão como base a inversão do cone visual feita por Kepler, conduzirão para uma “desmistificação” do papel do olho como agente ativo; o olho será agora entendido como o receptáculo de informações provindas do objeto, no qual cada ponto – cada vértice de um cone visual – será representado na pupila do olho, sofrendo alterações dentro do mesmo até representar uma imagem do objeto.

 

 Oftalmologia moderna

Atualmente, o avanço da oftalmologia alcançou a geração do femtosegundo. Para se ter noção da tecnologia, imagine o tempo de um segundo, agora divida esse tempo por 1 bilhão, agora pegue esse resultado e divida novamente por 1 milhão, bem aí chegamos no fentosegundo. Assim, este laser consiste em nos proporcionar máquinas extremamente mais rápidas, o que lhe confere diversas vantagens sobre outros tipos de lasers, principalmente no que diz respeito à precisão e à segurança em procedimentos cirúrgicos, disponível na clínica CEO-Bauru. 

 

Fonte: A função do olho humano na óptica do final do século XVI. Claudemir Roque Tossato. scientiæ zudia, São Paulo, v. 3, n. 3, p. 415-41, 2005. 

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